- MÉRITO –
(Síntese biográfica)
(p.219)
Manhã de 5 de outubro de 1941. Manhã
de cobaltinas luminosidades. As nuvens em brancas manadas, passeavam nos céus
de um azul cansado. Uma brisa amena, soprava os penachos de palmeiras, que como
braços de turmalinas, saudavam o alvorecer doirado do astro-rei, que
levantando-se preguiçosamente, lançava sua cabeleira incendiada pelas dobras
assimétricas da terra. A cidade
espreguiçando-se, deixava os mantos translúcidos da madrugada, abrindo as
janelas de um dia alabastrino e brilhante. Já a lua se recolhera, puxando
consigo o manto de estrelas de sua corte, vagarosamente até outras plagas.
Acorda a cidade Lavras. Sobre todas as
maravilhas dessa manhã radiosa, pesava um esquisito véu de tristeza. As árvores
pareciam se curvar dolentemente e a própria brisa parecia soluçar desamparada
nas esquinas.
De alto a baixo, do Cruzeiro à
Estação. Em todos os recantos, da Chacrinha ao Cascalho; nas altas rodas, nos
asilos, nos quartéis, um sussurro medroso caminhava pausadamente, fazendo um
eco macio e temeroso nos lares e nas praças, no comércio e nas repartições:
Morrera a vovó Emerenciana...
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Muito cedo ainda, verdadeiras
romarias, desciam as ladeiras íngremes da nossa Lavras, até à casinha modesta
de Dona Emerenciana Pinto de Miranda. Ali naquela casa acolhedora, onde os pais
e esposos, de todas as rodas, de todas as classes, procuraram por anos a fio a
pessoa bondosa da nossa querida madrinha e vovó Emerenciana, uma torrente de
lágrimas brotava desconsolada, inundando todos os corações e pondo o seu soluço
de desconsolo em todos os peitos. Sobre a mesa, em seu ataúde florido, jazia
inerte o corpo cansado daquela boa e idolatrada velhinha.
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Quantas noites, quantas madrugadas, quantos
dias ensolarados ou chuvosos, não viram um esposo desesperado, esmurrar aquela
porta simples e acolhedora da vovó lavrense: - Siá Emerenciana! Vem comigo,
agora, bem depressa! Penso que é chegado o momento!... E nunca deixava de
aflorar naqueles lábios a mesma frase consoladora: - Calma meu filho, Deus há
de ajudar... com que certeza, com que convicção, vovó Emerenciana pronunciava
pausadamente estas palavras. E com razão. Deus sempre ajudava. Era mais um
filho de Lavras que nascia, sob os cuidados amorosos desta mãe de uma geração.
E quando o aviso do primeiro filho
chegava a um lar recém-formado, era de se ver o sorriso da vovó Emerenciana,
troçando do novo pai, que via em tudo aquilo uma situação desesperadora, como
se somente em sua casa, em toda a existência da humanidade, acontecesse fato
tão extraordinário: - Tenha calma, meu filho. Calma e paciência. Quando você
nasceu, fui eu quem atendi à sua boa mamãe. E você não está aí forte e
sensível? Quem sabe se esse filho seu que vai nascer, não virá também aqui um
dia, em busca de minha ajuda? Calma meu filho, Deus há de ajudar.
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D. Emerenciana Pinto de Miranda, ou
melhor, continuando com a familiaridade, vovó Emerenciana gozava da confiança
de todos os médicos de Lavras, que viam na sua prática, no seu desvelo, as
bases de uma verdadeira ciência. E a boa velhinha, dia após dia e noite após
noite, levava aos lares desta “terra dos ipês e das escolas”, o seu sorriso
amigo e a sua confiança altaneira.
Exercendo por uns quarenta anos a sua
espinhosa profissão de parteira, vovó Emerenciana comparticipou nos trabalhos
de dar à luz da vida cerca de quatro mil lavrenses. Soube ela também, ser na
verdade vovó de todos eles, porquanto a sua dedicação não terminava com o final
do trabalho profissional, mas, acompanhava os seus netinhos na vida, sempre com
desvelo e atenção, fazendo questão absoluta de ser vovó e madrinha. E, sem
exagero, era-o na verdade.
Vovó Emerenciana era comadre de meia
Lavras. Vivia sempre a indagar pela saúde da comadre ou do compadre, pela
situação do netinho. Era na verdade uma santa mulher.
Com que satisfação comparecia aos
aniversários dos netinhos – e nunca deixavam de convidá-la – tomava mesmo parte
ativa na festinha, preparava os doces, a mesa e nunca se esquecia de amassar
uma gostosa rosca folhada para o apetite da garotada. Ah! A rosca folhada da
vovó Emerenciana!
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D. Emerenciana Pinto de Miranda nasceu
nesta cidade de Lavras, a 16 de julho de 1865. Aqui passou toda a sua infância
e mocidade. Contraiu matrimônio com Sr. Sidney de Paula Pinto em maio de 1881.
Como esposa devotada, viveu sempre ao lado do seu marido, atravessando com ele
os caminhos da vida; sorrindo com as suas alegrias e chorando com as suas
tristezas.
Mãe carinhosa, deu ao mundo sete
filhos que eram o adorno de sua vida de batalhadora.
Em 15 de maio de 1903, justamente ao
completar-se o 22º aniversário de seu casamento, a morte entrou em sua casa,
roubando-lhe dos braços ternos e amorosos o companheiro de sua vida. Falecia o
seu marido Sidney de Paula Pinto.
Se D. Emerenciana foi uma boa vovó,
uma ótima comadre, que mãe extraordinária não foi! Enviuvando-se 22 anos depois
de casada, quando quase todos os filhos eram ainda crianças, cuidou ela da
educação de todos eles, sempre lutando pela vida, dentro da carreira que a
consagrou, fazendo dela o ídolo supremo dos lares lavrenses.
E galgou assim, vovó Emerenciana os
degraus da vida. Sempre confiante e bondosa, arranjando cada dia que passava,
mais um netinho para a sua já enorme família espiritual.
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E foi por tudo isto, que naquela manhã de sol,
mesmo sob os augures de um dia belíssimo, toda a cidade se debruçava num pranto
uníssono e sentido, fazendo verter do mais profundo do seu coração, lágrimas
sinceras de dor e desconsolo. Era o 5 de outubro de 1941.
Se vovó Emerenciana, que viveu e
batalhou como pobre, levando durante toda a sua vida um bálsamo a cada lar onde
um novo ser despontava para ocupar um lugar ao sol, morreu e foi sepultada como
u’a rica, no dizer do nosso amigo Bi Moreira. O seu enterramento foi uma
verdadeira e sincera apoteose da riqueza de sentimentos de um povo agradecido,
que, serpenteando pelas ruas tortuosas da cidade, levou até à última e eterna
morada o corpo de vovó Emerenciana.
Examinando-se cada rosto daquele
cortejo imenso, notava-se o pesar e o respeito, a dor e as lágrimas, que, num,
num corolário constante, marcavam todos os semblantes. Toda a Lavras compareceu
à última jornada de vovó Emerenciana sobre a terra. Empunhando as alças de seu
caixão, lavrenses de quem ela ouvira o primeiro choro e a quem dera o primeiro
banho, com seu desvelo maternal e amigo, caminhavam de olhar baixo, com o
coração dilacerado pelo rude golpe do destino. De todas as janelas e portas da
cidade, por onde passava aquela massa humana, como u’a mole de peregrinos
seguindo o seu profeta, rostos demarcados pela tristeza, apareciam prendendo
soluços, com os olhos queimados pelas lágrimas que então imperavam
desconsoladas, baixando-se respeitosamente; passava o cortejo da gratidão e da
saudade.
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De todas as esferas da atividade
lavrense, surgiram as mais veementes homenagens àquela que soube palmilhar com
carinho e desprendimento os sendeiros da existência. Todas as associações
religiosas da cidade compareceram ao seu sepultamento, devidamente
incorporadas, conduzindo os seus estandartes. A banda de música
Euterpe-Operária, conduzida pelo seu maestro, prof. José Luiz de Mesquita,
traduziu em notas musicais de pungentes marchas fúnebres, a tristeza e a dor
reinante em todos os corações. E, a passos lentos, aquela multidão heterogênea,
em absoluto silêncio, acompanhou confrangida, um corpo cuja alma já tomara
assento no além infinito, junto ao trono do Senhor.
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Hoje, 5 de outubro de 1947, vemos
passar o 6º aniversário de morte da inesquecível vovó Emerenciana. Os
lavrenses, netos espirituais desta bondosa velhinha, voltam seus olhos para o
azul dos céus, numa prece fervorosa e sincera, de onde brota, em florilégios
vibrantes, um preito de agradecimento e uma saudade perene e imorredoura.
Vovó Emerenciana, ouve aí das alturas,
a voz deste seu neto, que aqui da terra, contemplando pelos olhos da imaginação
a sua glória, se curva num misto de respeito e saudade.
Escondido aqui no meu cantinho,
desfrutando este lugar ao sol que a sua mão benfazeja ajudou a me proporcionar,
eu quero deixar aqui, para você, boa e dedicada velhinha, para você, vovó
Emerenciana, com uma saudade infinda e uma sinceridade tocante, o meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
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