sábado, 1 de janeiro de 2022

ESCÓRIA DE THOMAS

 



- Repulsa –



p.333

 

Arrancados do seio profundo da terra, os minérios em bruto são lançados ao fogo dos altos fornos, de onde brota. Num fio brilhante, em toda a sua pureza, o metal candente e vivo, pronto para o aproveitamento do homem. Entretanto, ao verificarmos, veremos nascer também dos mesmos fornos uma escória imprestável para a industrialização e útil somente para se misturar ao esterco e lançar-se sobre a terra.

 

Nos fornos da vida, onde se forjam as mentalidades claras e elevadas, vemos também surgir num monturo disforme a escória humana, que pela simples razão de nascer da mesma matéria, julga-se muitas vezes capaz de acompanhar os passos daqueles que trazem no sangue a têmpera da luta e da honradez.

 

Nascidas de início dentro dos mesmos princípios de formação, as mentalidades humanas, ao penetrarem na forja da vida, se definem e tomam os seus diferentes rumos. Uns procuram os caminhos da verdade e do direito, da liberdade e da honra. Outros adormecem nas trevas da inanição, esquecidos ou ignorantes do “por que” da existência, contentando-se somente em olhar o momento em que vivem, num desprezo imenso pelo futuro. A estes a comunidade ignora. São matérias inertes como quaisquer outras, arrastadas para cima ou para baixo, ao sabor das correntezas. Outros mais, na sua maioria mesmo, caminham através das espessas sombras que cobrem baixezas da existência. São os impotentes para as lides e para os ideais. São os gananciosos, são os escravos voluntários, são os déspotas e os tiranos, são os césares e as afrodites. É o roubo e a servidão, é Nero e Calígula, é a imposição e o crime, é a prostituição e a vergonha. É o apólogo do desbrio e a perseguição da verdade. O culto da tirania e o ódio à liberdade. É a traição do direito a favor da infâmia. É a desigualdade da luta pelo bem de poucos. É Lázaro ressuscitado esbofeteando a face do Senhor. É o fratricídio pelo poder.

 

Da pura têmpera do ideal, vemos brotar a honra e a igualdade, o trabalho e o brio. É a luta e a liberdade, o direito e a sinceridade. É Bolívar e San Martín, é Washington e Tiradentes, Isabel e Vargas Vila, Zumbi e Patrocínio, Castro Alves e Felipe dos Santos. É a verdade imortal, é a vida pelos semelhantes, é o sangue contra a servidão, é a palavra pela igualdade, é o nome pela honra e a revolta contra a imposição.

 

E a escória, imunda, impotente e presunçosa, não sabe fazer um paralelo entre a sua vergonha, entre a sua incapacidade e a decência dos apologistas e soldados da verdade. Incapazes de abrir luta sob a luz, se acobertam nas trevas da traição e da infâmia, em emboscadas imundas, movidos pela inveja e pelo despeito.

 

E é para você, monturo disforme da humanidade, para você, como um símbolo, escória de Thomas, que eu hoje ofereço, com desprezo e asco, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

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