segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

CORREIO DA DISCÓRDIA

 



- REPULSA –







(p.357)

 

 

Os espíritos nos quais a luz não encontra guarida e que vivem numa enferma obscuridade, desconhecendo os gestos de sinceridade e franqueza que formam a verdadeira vida, vegetam numa atmosfera de infâmias e maldades, alheios ao direito, à verdade e à liberdade.

 

Eu me dirijo hoje a você, correio da discórdia, a você, mensageiro gratuito da mentira, a você, covarde verme que se oculta nas trevas nojentas o anonimato, desenvolvendo uma trama vergonhosa de leva e traz, como que um alcoviteiro de bordéis.

 

Você talvez conviva comigo, mostrando-se à minha frente com aparências de amigo e companheiro. Você talvez, quem sabe? Já recebeu das minhas mãos algum benefício e não me queira perdoar por tê-lo ajudado em suas desditas.

 

O meu nome, desprezível traidor da verdade, não se coroa com louros de prestígio ou de riqueza. Não possuo a efeméride da pompa fictícia. Não sou galardoado com sangue de doiradas descendências, mas apresento-lhe a minha vida, as minhas palavras, os meus atos, o meu próprio nome, para que você aponte neles algum estigma de inverdade e de incerteza. Tenho para os meus dias um lema que acima de qualquer riqueza ou prestígio material, guia todos os meus instantes, para você isso talvez seja desconhecido; é o lema do orgulho e da honra. Orgulho de possuir uma opinião toda minha, inquebrantável e pessoal. Orgulho, afinal de ser livre. Acima disto, mensageiro da infâmia, possua a honra de ser sincero, a honra de ser franco e positivo, a honra de ter moldado o meu espírito num molde superior, alheio às sordícias do meio em que vegeta a sua esquálida consciência.

 

As amizades que tenho, ingênuo difamador, não poucas mas são sinceras. Já que você se morde por contemplar-me independente em meus desígnios, abandona o meu lado, mas saiba fazê-lo com brio e decência, pois na própria discórdia necessitamos da sinceridade. Cerra a sua boca de escravo comprado, procura também tornar livre o seu espírito, pois, só assim poderá você conhecer a honra e o orgulho. O seu papel de mensageiro da mentira em torno do meu nome, materialmente pobre, mas rico de sinceridade e de franqueza, nada mais demonstra que uma inferioridade espiritual e intelectual, procurando com infâmias, remover a sombra que se projeta sobre os seus dias, com altaneria e indiferença. Procura viver a sua vida dentro do seu meio, já que a sua pobreza espiritual o proíbe de alçar vôo até posições mais livres.

 

Ainda mais; desejo ter a honra de desconhecê-lo, meu insincero amigo, mas abandona esse caminho incerto. Sempre é tempo para viver às claras.

 

Esperando que as minhas palavras possam induzi-lo a sendeiros mais iluminados, eu quero deixar aqui, para você, inimigo da sinceridade, para você, correio da discórdia, com indiferença, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

 

INFÂNCIA DE LAVRAS

 


- ODE –



(p.353)



Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... e com um revoar de pássaros canoros, aí está, buliçosa e alegre a infância de minha terra, enchendo com os gorjeios de sua cândida inocência, os ares desta Lavras velha e esburacada, como se as mãos da vida rasgassem prematuramente em suas faces os sulcos da velhice, alçando nas azas da ampulheta do tempo, o vôo até o ocaso do progresso, onde dormem solitárias as águas do esquecimento e do marasmo de administrações mal orientadas.

 

Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... cantam as vozes infantis, como outrora cantei também pelas tortuosas ruas desta Santana do Funil, enquanto meus antecessores clamavam por uma administração consciente, que apagasse o pó de nossas vias, que trouxesse água até nossas casas e iluminasse as noites de nossa terra. E o marasmo imperava; imperava e impera ainda na sucessão constante, inconsciente e irresponsável, que sempre cobriu com seu manto letárgico as cabeças de governantes apadrinhados, que recebem nas mãos a direção de uma comunidade, como se recebessem um brinquedo, afeto às suas vontades, no qual pudessem vingar os seus momentos de ira, destroçando-o.

 

Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... será que se torna necessário arrancar da infância toda a inocência que coroa suas cabecinha mimosas e indiferentes, ensinando-lhe outras melodias, saturadas de irresponsabilidade, e de ira, de ansiedade e de rancor?! Será necessário transformar em mais um brado aliado ao nosso, as vozes tenras das criancinhas,para que, mudando o diapasão ou aumentando-lhe a intensidade, os poderes públicos voltem seus olhos para as nossas necessidades?! Será necessário mostrar desde já aos homens de amanhã, o quanto espinhosa e árdua se trona a luta por compreendidos ideais?! Não, nunca! Deixemos a infância, com sua candura ignorar a luta, até que seu dia desponte para isso e ela então brade como nós, por um futuro mais certo e mais progressista.

 

Infância de minha terra! Eu creio no seu futuro por uma Lavras melhor; entretanto, agora, eu quero somente ouvir na inocência da sua voz, uma ária que me traz saudades: ...ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... e é para você, infância alegre e buliçosa da minha querida Lavras, que eu deixo aqui hoje comovidamente, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

SEBASTIÃO NAVES

 



- MÉRITO –





(p.349)

 

Ao se encerrar a tortuosa e árdua travessia dos mares do ideal e dos desertos da vontade, povoados ambos de imprevistos em cada quebrada e de perigos a cada passo, em demanda de um porvir sorridente, encontrados são sempre os espíritos de abnegação e apóio, alheios a qualquer vantagem futura, que se atiram entusiasmados, entregando a sua melhor boa vontade e esforço pela finalidade justa de um ideal bem sonhado.

 

A cooperação e amparo a uma realização não se resumem, como imaginam os mercenários construtores de um amanhã material, na quantidade em ouro despejada sobre as farsas ignóbeis dos espíritos petrificados. O apoio material vence obstáculos, somente em união de conceitos e homogeneidade de pensamentos com o amparo moral e cooperação espiritual – luzeiros certos e claros dos caminhos da vitória.

 

Nós possuímos, gravados em nossos corações, nomes que jamais se apagarão, enquanto pulsar no peito de Lavras este coração forte, esta célula vibrante que estreita elos de simpatia e interfunde amizades imorredouras: Rádio Cultura D’Oeste.

 

Vocês, Sabastião Naves, é um dos encorajadores espirituais que se aliaram a nós, dispostos para a luta que empreendemos. Em cada funcionário, em cada diretor e em cada artista desta emissora, você encontrará um amigo certo e agradecido. Em cada vitória deste ideal, você verá retratado um átomo vibrante da sua cooperação.

 

O seu interesse de lavrense amante de seu solo, traduz bem a sua vontade de trabalhar pelo engrandecimento desta “terra dos ipês e das escolas”. Você sabe, com o seu espírito culto e impoluto, separar o joio do trigo e dar valor aos ideais de nobres princípios.

 

Gravando hoje o seu nome, com letras indeléveis nas ondas emissora do povo, eu deixo aqui, Sebastião Naves, com a minha admiração e de meus colegas de trabalho, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

domingo, 2 de janeiro de 2022

CAP. FRANCISCO RIBEIRO DE CARVALHO

  



- MÉRITO –



(p.346)

A história de Lavras se enche dos feitos dessa alma nobre e desprendida, que esquece o cuidado de si própria, para estender aos sofredores e deserdados da sorte a sua mão balsâmica de carinho e de consolo.

 

O batalhão da caridade, marchando garboso sob o ruflar dos tambores da benevolência e o clarinar de hinos fraternais, tem à testa u m comandante impoluto, resignado e forte: Capitão Francisco Ribeiro de Carvalho.

 

Quando a terrível “espanhola” assolou esta terra com seu alfanje implacável, empunhado pelas mãos sedentas da morte, ceifando inocentes vidas e lançando de todos os casebres, de todos os palácios, de toas as residências; da mais miserável à mais suntuosa, um só gemido de dor um só grito de desespero, um homem conduziu o pelotão da bondade e da cooperação, da salvação e da fraternidade, enfrentando a moléstia tirânica com denodo e coragem, peito aberto sob a chuva de noites tempestuosas ou sob a canícula dos dias calcinastes: Cap. Francisco Ribeiro de Carvalho.

 

Quando a dor, o sofrimento e a miséria, batem às portas da caridade em busca de alívio, consolo e subsistência, uma figura heróica lhes abre os portões do acolhimento, sempre o mesmo sorriso bondoso e amigo: Cap. Francisco Ribeiro de Carvalho.

 

Quando as criancinhas, nascidas sob o anátema da pobreza, envoltas no maltrapilho manto do desespero, buscam um orifício no negro céu do infinito, que plasma os deserdados de direito, em busca de uma réstia de luz, um vulto irremovível afasta de suas cabeças a obscura abóboda da ignorância, fornecendo-lhes os livros e os ensinamentos que os levam a ter um lugar ao sol da vida: Cap. Francisco Ribeiro de Carvalho.

 

E é para você, chama viva e clara que ilumina para os desgraçados os caminhos da existência; para você, espírito lúcido, que orienta como uma estrela guia, os passos incertos dos sofredores; para você, coração grande e alma nobre, que sacrifica seus próprios dias pelo bem estar, conforto e consolo dos seus semelhantes; é para você, Cap. Francisco Ribeiro de Carvalho, eterno batalhador da Cruz Vermelha Brasileira, que eu deixo aqui hoje, do âmago do peito, o meu ei...

 

 

 

 

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

DR. ANTÔNIO HERMETO

 




- Mérito –



p.341

 

 

A luminosidade dos espíritos elevados e o esclarecimento de mentes idealistas, manifestam-se sempre em pessoas em que a modéstia e a simplicidade marcam com seu cunho de simpatia, o todo de grandioso e nobre que pode a natureza depositar no corpo de um mortal.

 

Os trilhos da vida, com todos os seus tropeços, com todas as suas incertezas e todos os seus obstáculos, significam para as mentes lutadoras e convictas, somente u passo a mais no caminho da luta, em demanda de uma vitória certa e de um futuro brilhante.

 

Dr. Antônio Hermeto, dentro dessa modéstia que o envolve como um sudário, cobrindo a refulgência de um sacrário de outro, nós vislumbramos a grandeza d’alma e a potencialidade de raciocínio que mora em você.

 

Dentro dessa simplicidade de probo e humilde homem das atividades diuturnas, fechado dentro do respeito social e dos compromissos familiares, alheio às reuniões pomposas de glórias efêmeras, nós vemos um insaciável espírito de lutas, inabalável nas suas concepções, indestrutível nas suas doutrinas, irremovível no cumprimento do seu dever e impenetrável na afirmação de sua modéstia.

 

No campo da ciência, nós apontamos em Lavras a sua figura altaneira de pesquisador incansável pelo bem da humanidade.

 

No horizonte do esporte lavrense, nós sentimos a cooperação e o esforço dessa inquebrantável vontade de pugnar pela infância e pela mocidade, por um futuro mais são e mais forte, pelo porvir da nossa terra.

 

Nas sendas do ensino, nós vemos a sua figura nobre, encerrando dentro do peito uma alma jovem e um coração grande, batalhando sempre pelo saber e pela grandeza de um povo.

 

Através de seus sábios ensinamentos, quantas gerações encontram o caminho da glória?!

 

Guiados pela sua mão, quantos galgaram os degraus da fama, até o pedestal de imortalidade espiritual?!

 

E você, você é sempre o mesmo Antônio Hermeto; modesto além da própria modéstia, simples além da própria simplicidade, escondido nas sombras dos pedestais erguidos pela sua mão.

 

Na conduta de sua família, nós o vemos, sempre com o mesmo sorriso, conduzir pela mão, um a um, até os amplos horizontes da felicidade certa.

 

E é para você, Antônio Hermeto, é para você, mestre de todos os tempos, luz de arrojados ideais lavrenses, que eu levanto aqui um pedestal, modesto como sua própria pessoa, simples como o seu próprio padrão de vida, para colocar nele uma frase sincera, que traduz toda a fraternidade do povo de Lavras. Eu deixo nesse marco, Antônio Hermeto, meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

JOSÉ OTÁVIO E AÍDA

 




- Cumprimento –



p.337

 

Neste dia em que toda a natureza lhes parecerá sorrir com o mais franco sorriso de todos os seus encantos.

 

Neste dia em que o sol lhes aparentará mais uma auréola, coroando os céus de seus ideais e que os rumores da natura cantam em melodias altissonantes.

 

Neste dia, no pórtico sereno da tarde azul, como o vapor de um lago, brilha na sombra de uma miragem undívaga...

 

É um círio?

 

É um lírio?

 

Uma estrela ou uma flor?

 

Brilha tremulante na paz extrema e maravilhosamente bela, com um fulgor adorável de anêmonas em flor... esvai-se lentamente na penumbra macia, treme medrosa no crepúsculo morno e se abre como o divino broche de um narciso; suspenso nos lábios da noite... rosa clara e terna do paraíso no reflexo abismal dos sonhos... que é isto? É o fantasma de um beijo que se alevanta e se agiganta, na perpetuação de ideais há muito acalentados.

 

Profundas coisas interiores do jardim dos silêncios, dizem à alma sua beleza coroada de mistérios; sua beleza circundada de divinos sortilégios. Brancos véus no crepúsculo, ante os quais se inclinam sorrindo os rosais pensativos deste amável florilégio.

 

O açafrão dos céus se retrata sobre as águas cor de prata, mansamente adormecidas sob o azul dolente. Se diria que nessa etérea melancolia se evapora o coração do próprio dia; deste mesmo dia em que o hino do Himeneu, como Artarot da Síria na veracidade dos fatos, rompendo os anais do tempo ou como Romeu e Julieta na fantasia da imaginação, trava com a vida o mais estreito e completo convívio, desvendando de Alfa a Ômega, os segredos de uma felicidade completa.

 

Os floridos caminhos de uma vida feliz, do princípio ao fim de toda uma existência, serão bem curtos para vocês que empreendem, apoiados na pureza de um amor absoluto e na união de ideais coerentes, o trilhar de um sendeiro mais sólido, de um caminho mais definido, de uma existência mais pura e concepções mais nobres.

 

O sonho de Mendelsonh, traduzido em melodias sonoras, saberá cantar em notas de uma pureza inigualável, o todo de amor e sinceridade que hoje povoam os seus corações sonhadores e visionários, que souberam vislumbrar, através das brumas da vida, a estrela guia de um futuro feliz e florido de venturas, como o cobalto de um céu translúcido pontilhado de corpos celestes.

 

O cortejo de Himeneu, serpenteando nas alturas de uma miragem azul, será para vocês um carro de glórias, voando pelo país encantado dos sonhos até o porto real da felicidade completa.

 

Com os mais profundos e sinceros votos de ventura, aqui fica, José Otávio e Aída, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊS.

sábado, 1 de janeiro de 2022

ESCÓRIA DE THOMAS

 



- Repulsa –



p.333

 

Arrancados do seio profundo da terra, os minérios em bruto são lançados ao fogo dos altos fornos, de onde brota. Num fio brilhante, em toda a sua pureza, o metal candente e vivo, pronto para o aproveitamento do homem. Entretanto, ao verificarmos, veremos nascer também dos mesmos fornos uma escória imprestável para a industrialização e útil somente para se misturar ao esterco e lançar-se sobre a terra.

 

Nos fornos da vida, onde se forjam as mentalidades claras e elevadas, vemos também surgir num monturo disforme a escória humana, que pela simples razão de nascer da mesma matéria, julga-se muitas vezes capaz de acompanhar os passos daqueles que trazem no sangue a têmpera da luta e da honradez.

 

Nascidas de início dentro dos mesmos princípios de formação, as mentalidades humanas, ao penetrarem na forja da vida, se definem e tomam os seus diferentes rumos. Uns procuram os caminhos da verdade e do direito, da liberdade e da honra. Outros adormecem nas trevas da inanição, esquecidos ou ignorantes do “por que” da existência, contentando-se somente em olhar o momento em que vivem, num desprezo imenso pelo futuro. A estes a comunidade ignora. São matérias inertes como quaisquer outras, arrastadas para cima ou para baixo, ao sabor das correntezas. Outros mais, na sua maioria mesmo, caminham através das espessas sombras que cobrem baixezas da existência. São os impotentes para as lides e para os ideais. São os gananciosos, são os escravos voluntários, são os déspotas e os tiranos, são os césares e as afrodites. É o roubo e a servidão, é Nero e Calígula, é a imposição e o crime, é a prostituição e a vergonha. É o apólogo do desbrio e a perseguição da verdade. O culto da tirania e o ódio à liberdade. É a traição do direito a favor da infâmia. É a desigualdade da luta pelo bem de poucos. É Lázaro ressuscitado esbofeteando a face do Senhor. É o fratricídio pelo poder.

 

Da pura têmpera do ideal, vemos brotar a honra e a igualdade, o trabalho e o brio. É a luta e a liberdade, o direito e a sinceridade. É Bolívar e San Martín, é Washington e Tiradentes, Isabel e Vargas Vila, Zumbi e Patrocínio, Castro Alves e Felipe dos Santos. É a verdade imortal, é a vida pelos semelhantes, é o sangue contra a servidão, é a palavra pela igualdade, é o nome pela honra e a revolta contra a imposição.

 

E a escória, imunda, impotente e presunçosa, não sabe fazer um paralelo entre a sua vergonha, entre a sua incapacidade e a decência dos apologistas e soldados da verdade. Incapazes de abrir luta sob a luz, se acobertam nas trevas da traição e da infâmia, em emboscadas imundas, movidos pela inveja e pelo despeito.

 

E é para você, monturo disforme da humanidade, para você, como um símbolo, escória de Thomas, que eu hoje ofereço, com desprezo e asco, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

INGRATA SORTE GRANDE

  



- Destino? –



p.329

 

Como na loteria da vida, onde nos encontramos sempre com a decepção e às vezes com a sorte, também na caça incessante do dinheiro, que com tanto entusiasmo e convicção nos oferecem os cambistas, nos multicores desenhos de um bilhete, nos encontramos às vezes com o número da sorte. Colocamos as nossas mãos sobre ele... mas... sempre a indecisão, sempre a dúvida do desconhecido a nos atormentar e abrimos nossas mãos e a sorte voa como se fosse um pássaro, até encontrar outra prisão, não com esperanças de liberdade, mas sim para nela depositar o seu fruto de outro e de riqueza, trazendo alguma vez a felicidade e muitas vezes a desgraça.

 

Pela segunda vez – Oh! Ironia do destino – eu me encontro face a face com a sorte grande. Há qualquer coisa de atrativo nas cores do bilhete. O número... como qualquer outro, é sempre um número e todos eles estão presentes na roda da sorte. Mas... este... tem um quê de interessante. Bonita combinação: 4535... e vem do reparto de São Paulo. Mas. Que baboseira a minha. Que estúpido fatalista estou ficando. O subconsciente pode mais e o meu desejo é vencido. Um bilhete de loteria... como esse, milhares estão por aí. Todos eles têm também bonitas cores e com elas números sugestivos. Abro as mãos e desprezo o ouro que me oferece entre tantos, a loteria da vida. Número 4535... em poucos minutos, já não mais me recordava dele. No burburinho da Cidade Maravilhosa, tudo acontece em segundos e outras atividades, numa metamorfose ciclônica, nos transportam de um palco a outro, na eterna comédia da vida.

 

Eis-me de volta a Lavras. O caso do bilhete nem sequer de leve aparece. Perdeu-se há muito na sequência do caminho. Entretanto, sem querer, por acaso mesmo, consulto a lista dos resultados: em destaque, números grandes e negros, vejo, encimados pelo título: “SORTE GRANDE” – DOIS MILHÕES DE CRUZEIROS – Nº 4535. Penso comigo e tenho um rancor surdo do meu subconsciente. Mas... quem sabe a fatalidade?! Somo com esta, duas vezes. A vida continua, haverá uma próxima vez?

 

E é por isso, ingrata sorte grande, por isso, número 4535, que eu, aproveitando hoje a minha falta de assunto, deixo aqui, para você, como um agrado para o futuro, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

ESCOLA SUPERIOR DE AGRICULTURA DE LAVRAS

 



- Labor –



p.326

 

Rasgando com o seu arado o sulco do saber, alicerçado solidamente no lema de “Ciência e Prática”, você, Escola Superior de Agricultura de Lavras, tem lançado, nos campos e nos laboratórios do Brasil, homens que sabem honrar o seu nome e elevá-lo mais e mais no conceito científico de um futuro mais produtivo, mais amplo e mais certo.

 

Vindos de plagas distintas; do coração causticante do nordeste ou dos prados frios do sul, a mocidade amante da terra encontra em você a bússola que norteia com segurança os trilhos do porvir, na incessante faina do solo.

 

A cada vez que suas mãos se abrem, no final de cada ano, um punhado de vibrante força e de saber se desprende delas, para seguir os passos de outros muitos que o antecederam, marcando sempre com indelével cultura, os sendeiros trilhados em demanda perfeição.

 

Você, forjadora de ideais, irmana em seu seio as células vivas deste Brasil imenso. Você une com os laços da amizade a juventude, que deixando os eu lar, no sul, norte ou no centro, procura nas palavras de seus mestres, a luz da ciência e do trabalho.

 

Falar de você, Escola Superior de Agricultura de Lavras, é falar de uma família imensa, cujo lar não tem fronteiras; galga serras e cordilheiras, transpõe rios e mares, vive além do horizonte mais próximo ou muito além do incomensurável oceano. E, é próxima ou distante uma só família, uma e inseparável, comungando com os mesmos princípios, lutando pelo mesmo ideal, mostrando-se em afinidades idênticas. Esta é a família esaliana; e, falar dela é falar do Brasil, pois os seus componentes palmilham, em diversos setores, todos os estados de nossa pátria.

 

Difícil seria falar de você, Escola Superior de Agricultura, se não tivesse eu um dia, procurado o seu aconchego e bebido à sua fonte – fonte de força que une e que irmana, que cria e imortaliza amizades. – Durante os anos em que passei, dentro de suas salas, nos seus laboratórios ou nos seus campos, eu colhi para mim, para o meu futuro, faróis poderosos para a claridade dos meus caminhos. Encontrei a certeza de verdadeiras amizades e me fiz membro de sua grande imortal família.

 

E é, como um filho que levanta a sua voz num preito de saudade e agradecimento, que eu quero deixar aqui, hoje, para você, Escola Superior de Agricultura de Lavras, berço do saber, albergue da sinceridade, com profunda admiração e respeito, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

CORREIO DA DISCÓRDIA

  - REPULSA – (p.357)     Os espíritos nos quais a luz não encontra guarida e que vivem numa enferma obscuridade, desconhecendo os...