-Luta-
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Nascido, muitas vezes de um pecado, de
um abuso, ou da fome de uma infeliz desesperada, você, moleque de sarjeta, sem
pai e sem nome, vive jogado nas enxurradas da vida, sem amparo e sem pão,
aprendendo somente a estender a sua esquálida mão de prematuro sofredor,
mendigando migalhas de porta em porta e temendo a cada esquina o aparecimento
da polícia, que o escorraça e o maldiz.
Você, mísero pedaço de uma pátria desregrada,
pária irresponsável e sem culpa, atravessa a vida pelo lado negro, sem o direito
de um lugar ao sol, aprendendo com a maldade humana, a furtar e a praticar atos
indignos. Mas, você, farrapo de humanidade, escória das tabernas, não tem sobre
sua cabeça a culpa de sua desgraça, pois vivemos num mundo onde o direito de
ter e de saber, pertence àqueles que têm a bolsa recheada e um medalhão
fulgente nos Brasões de uma descendência endinheirada.
Você, fruto do abandono e da fome, não
tem o direito de erguer a sua voz para exigir, pois o seu nome não consta da
relação dos apadrinhados junto aos nossos governantes e protegidos por fortunas
descendências doiradas.
Você, negra mancha de uma pátria de
burocratas inertes, nasceu da inanição e há de viver para a dor e o abandono,
enquanto os amedalhados dirigentes deste solo de indiferenças não deixarem os
seus gabinetes de luxo e chegarem até às suas taperas imundas e sem teto.
Enquanto a nossa pátria for dirigida por circulares e papelórios impotentes, você
terá que rodar pelas sarjetas da existência, sem porto e sem parada, sem luz e
sem proteção.
Enquanto a educação for privilégio dos
que possuam uma certidão de nascimento e um pouco de ouro, você terá que buscar
na mendicância e no roubo, o sustento de seus negros dias, aprendendo nos
bordéis da vida, o caminho mais fácil para se tornar um cancro da existência,
seguindo os passos dos que ontem, como você, nasceram da prostituição e da
miséria. No mar do destino, você será sempre um barco abandonado, sem um porto
onde lançar sua âncora, vagando ao sabor das ondas, sob a imposta bandeira de
pirata.
Olhando por trás dos velários desta
existência fictícia e vendo-o afogado nos charcos da vida, procurando u’a mão
que o ampare, eu sinto uma revolta imensa e uma vergonha sem par, pois, se para
os que sofrem do corpo, existem os hospitais, por que então, os que nasceram de
um mau e involuntário estigma e vieram ao mundo com a alcunha de doente moral
hereditário, não têm o direito de se curar e buscar o lado claro e iluminado da
existência?
É para você, chaga aberta de uma
pátria ferida, para você, mísero moleque de sarjeta, que eu deixo aqui hoje o
meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
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