quinta-feira, 25 de novembro de 2021

MOLEQUE DE SARJETA

      

-Luta-

 

p.35

 

 

Nascido, muitas vezes de um pecado, de um abuso, ou da fome de uma infeliz desesperada, você, moleque de sarjeta, sem pai e sem nome, vive jogado nas enxurradas da vida, sem amparo e sem pão, aprendendo somente a estender a sua esquálida mão de prematuro sofredor, mendigando migalhas de porta em porta e temendo a cada esquina o aparecimento da polícia, que o escorraça e o maldiz.

 Você, mísero pedaço de uma pátria desregrada, pária irresponsável e sem culpa, atravessa a  vida pelo lado negro, sem o direito de um lugar ao sol, aprendendo com a maldade humana, a furtar e a praticar atos indignos. Mas, você, farrapo de humanidade, escória das tabernas, não tem sobre sua cabeça a culpa de sua desgraça, pois vivemos num mundo onde o direito de ter e de saber, pertence àqueles que têm a bolsa recheada e um medalhão fulgente nos Brasões de uma descendência endinheirada.

 Você, fruto do abandono e da fome, não tem o direito de erguer a sua voz para exigir, pois o seu nome não consta da relação dos apadrinhados junto aos nossos governantes e protegidos por fortunas descendências doiradas.

 Você, negra mancha de uma pátria de burocratas inertes, nasceu da inanição e há de viver para a dor e o abandono, enquanto os amedalhados dirigentes deste solo de indiferenças não deixarem os seus gabinetes de luxo e chegarem até às suas taperas imundas e sem teto. Enquanto a nossa pátria for dirigida por circulares e papelórios impotentes, você terá que rodar pelas sarjetas da existência, sem porto e sem parada, sem luz e sem proteção.

 Enquanto a educação for privilégio dos que possuam uma certidão de nascimento e um pouco de ouro, você terá que buscar na mendicância e no roubo, o sustento de seus negros dias, aprendendo nos bordéis da vida, o caminho mais fácil para se tornar um cancro da existência, seguindo os passos dos que ontem, como você, nasceram da prostituição e da miséria. No mar do destino, você será sempre um barco abandonado, sem um porto onde lançar sua âncora, vagando ao sabor das ondas, sob a imposta bandeira de pirata.

 Olhando por trás dos velários desta existência fictícia e vendo-o afogado nos charcos da vida, procurando u’a mão que o ampare, eu sinto uma revolta imensa e uma vergonha sem par, pois, se para os que sofrem do corpo, existem os hospitais, por que então, os que nasceram de um mau e involuntário estigma e vieram ao mundo com a alcunha de doente moral hereditário, não têm o direito de se curar e buscar o lado claro e iluminado da existência?

 É para você, chaga aberta de uma pátria ferida, para você, mísero moleque de sarjeta, que eu deixo aqui hoje o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

 

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