Bem sei que você anda cansada dos meus
dedos, que por dias a fio, sem descanso, comprimem as suas teclas num esforço
titânico, por fazer alguma coisa de útil, de aproveitável.
Dias existem em que você me sorri
satisfeita e o assunto brota espontâneo da nossa cooperação. Outras vezes você
discorda de mim, mas vai aceitando com boa vontade e paciência as minhas
imposições. Outras vezes mais, julga-me você um tanto violento no combate a
alguma coisa, mas acaba concordando com os meus pontos de vista e trabalhando
comigo. Entretanto, existem também os dias em que me assento à sua frente e ponho-me
a contemplá-la. Fraco, impotente, sem assuntos, desanimado de bradar no
deserto. E, parece-me vê-la sorrir um sorriso de mofa, zombeteiro, insultante
mesmo. Mas, eu compreendo a sua mentalidade. Você anda já cansada. As letras do
seu teclado parecem baralhar-se ante meus olhos, formando palavras e frases,
como se você procurasse, através da sua fria mudez, falar do meu fracasso,
empregando frases como estas: - Por que não desistes dos teus sonhos vãos? Por
que continuas a apontar o mal? Não vês que aqueles a quem defendes te lapidam
pelas costas, riem da tua vontade de criar, de emoldurar, de produzir? Abandona
este estúpido idealismo de trabalhar a favor do direito. Segue a rotina da
vida. Chafurda o teu corpo no lodo d escravidão e cega os teus olhos paras as
visões de liberdade! Deixa à beira do teu caminho este mito, esta vontade que
te acompanha e penetra também nos escuros labirintos da existência ignorante. O
dia em que fores também um servo, o dia em a tua palavra for empregada para
bajular o autoritarismo, para sagrar os maus feitos e lutar pela degeneração do
povo, então terás valor ante os que agora te contemplam, com ódio e com temor,
com despeito e com indignação. O dia em que a tua cabeça se pender sob o peso
do ouro e a tua voz se vender ao poder dos potentados, terás então o teu nome,
correndo de boca em boca, lembrado como exemplo de moral e dignidade. Terás
então o valor que os homens sabem dar a todos aqueles que pregam a servidão e
mutilam a liberdade!
Compreendo bem as suas palavras, minha
máquina de escrever, estou também de acordo com você, no julgar da mentalidade
humana: o valor de um homem está, não no cumprimento sagrado da justiça e do
direito. Não no apostolado da honra e da verdade, mas sim no abuso a mentira e
da infâmia. Na corrupção, na desonra e na bajulação.
Compreendo o seu desânimo, mas jamais
usarei as suas teclas a favor da imposição. Jamais dobrarei a minha fronte ao
peso do outro ou dos chicotes nojentos da tirania autoritária. Se algum dia
baixar sobre a vergasta de um tirano, há de ferir-me na face, pois minha cabeça
não fraquejar e saberei enfrentar de rosto alevantado, o carrasco compra da
degeneração e da mentira.
Por isso, minha boa amiga e
companheira, guarda para você os seus conselhos. Eu saberei seguir o meu
caminho, em linha reta dentro do meu ideal de lutas.
Aproveitando estar você hoje mal
comigo, eu quero dedicar-lhe com carinho, sem constrangimento, agradecendo, mas
não aceitando as suas bem-intencionadas palavras, minha máquina de escrever, o
meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
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