- Divagação –
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Dias existem em que a nossa mente se
transborda em motivos diversos e não sabemos sobre qual deles escrever alguma
coisa. Os assuntos brotam aos borbotões, deixando-nos atordoados e titubeantes;
indecisos na escolha do melhor ou interessante, mais atual ou mais rico de
recursos. Entretanto, dias existem também, que nos sentimos vazios e ausentes,
isolados em um verdadeiro deserto, buscando um oásis intelectual e nem miragens
se nos apresentam. Aí então divagamos dentro de nós mesmo, tentando, no estudo
psíquico da autocontemplação, arrancar alguma coisa de útil e interessante, de
atual e inédito, entretanto, só conseguimos ver, chagado pelos caminhos da
vida, o nosso espírito, ora sequioso de glórias, lutando por uma réstia de sol
a mais, ora desanimado e triste, indiferente à sua própria sorte,
desinteressado de sua própria existência.
Por entre o espocar de soluços e o
derramar de lágrimas deste autoestudo espiritual, ouvimos às vezes um riso de
mofa ou uma gargalhada irônica.
É o imaterial que zomba de seus
próprios sonhos, como o canto de um escravo, que contemplando as cadeias que o
tolhem, que o ferem e matam. Sonha com a grandeza de um porvir impossível e
derrama sobre os grilhões da impossibilidade o seu pranto de servo, semeado de
impropérios e frutificado de dor, na ânsia do ódio e da miséria.
Contemplamos no espelho de nós mesmos,
esse desigual combate entre o cérebro e o espírito. O primeiro, visionário e
resoluto, pronto a enfrentar obstáculos, quebrar mitos e fantasias. O segundo
realista e medroso, dobrando-se num misto de dor e respeito, ante o fantasma do
passado, agrilhoado às correntes de sua própria existência, sofrendo a dor de
sua própria vida, na incompreensão mundana, onde o ouro compra e arrasta a
mortalha da degeneração universal.
E, nessas divagações dentro de mim
mesmo, eu deixo aqui, para você e sua falta de assuntos, meu espírito vazio, o
meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
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