segunda-feira, 29 de novembro de 2021

PONTO DE INTERROGAÇÃO

 

 - Divagação -




p.61

 

Cada dia, ao encetar a caminhada pelas alamedas terrenas, encontro na Alfa e Ômega deste trilhar, duas encruzilhadas que marcam o princípio e o fim de todas as realizações.

 Na primeira encruzilhada, nos encontramos sempre face a face com o desconhecido, como um ser que nascido das trevas da cegueira, abrisse de repente os olhos e vislumbrasse cenários nunca imaginados e coloridos a que o manto da escuridão lhe proíbe definir.

 Desta encruzilhada à outra, vivemos o meio termo da vida, sorrimos ao novo cenário desconhecido a dúvida que nos há de torturar além da próxima elevação que azula no horizonte. Neste trecho forçado da vida, qualquer penacho de sol que risca o azul dos céus ou qualquer raio de lua que lança no negrume da noite uma fria e luminosa réstia,transforma-se aos nossos olhos em poemas cantantes de felicidade e se avolumam e crescem nas páginas que a nossa mente ingênua reserva à fantasia e à efeméride dos sonhos.

 E marchamos... marchamos acalentando ilusões e construindo castelos. Derrubando com a nossa irresponsabilidade, obstáculos imaginários. Criando mitos e construindo fábulas, enfim; cortamos o entrepontos da vida, por sendeiros amplos e luminosos, alegres e despreocupados, de braços com o motivo que se nos deparou no bifurcamento inicial. Entretanto, sem se saber como, assoma-se aos nossos olhos, como a bailar no espaço, confuso e amedrontador,um ponto de interrogação. É que chegamos à encruzilhada decisiva, abrindo-se em dois caminhos; um deles é claro, amplo e reto; leva até a felicidade. O outro é negro, árido e espinhoso. Nas suas curvas trevosas, sobre escarpas íngremes, bailam os gênios da desgraça e do sofrimento; este leva até à infelicidade eterna.

 Mas... sempre a dúvida. Sempre aquele ponto de interrogação a bailar misteriosamente aos nossos olhos.

 Tentamos a escolha, mas o motivo que até ali nos foi sorridente e fácil, abre seus braços e fecha a entrada dos sendeiros de luz e nós voltamos as nossas vistas para a escuridão das trevas e marchamos pelo trilhar miserável da desdita, com uma última lágrima de esperança a luzir nos olhos, como se brotasse de um coração sem vida e chorasse a dor do desamparo e da saudade.

 Morto o ideal, esgotada está a fonte de todos os sonhos; rompida está a ânfora das esperanças esmagada nas mãos impiedosas do destino.

 E que foi que nos lançou para esse lado da vida? Circunstâncias... vontade... dever... indiferença? Não! O que nos levou até ali, foi aquele fantasma misterioso que embuçado no seu negro manto, gargalha pelas gargantas da vida, como se sua voz brotasse do coração de séculos há muito apagados nas páginas da existência; um ponto de interrogação.

 E é para você, dúvida ferrenha, para você, fantasma da desdita, para você, ponto de interrogação, que eu deixo aqui, do profundo de suas trevas, como um murmúrio medroso, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

 

 

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