quarta-feira, 24 de novembro de 2021

APRESENTAÇÃO

 

ELCÍDIO GRANDI

 

  

O MEU EI

PARA VOCÊ

 

  

 

COLETÂNEA DE LIGEIRAS

CRÔNICAS RADIOFÔNICAS

 

 

  

LIVRARIA EDITORA ZELIO VALVERDE S. A.

Travessa do Ouvidor, 27

RIO – 1948


  

 

 

 

A verdade pode ser dita em todas as línguas, em todos os dialetos. Da boca do sábio ao sussurro do leito, ela é una, forte e temida.

 

 O direito é propriedade de todos os viventes. Cair abraçado a ele é dever de todo cidadão.

 

 A liberdade é o maior escudo de defesa humana. Ser livre é estar mais próximo de Deus.

 

 

 

OFERENDA

 

 A MEUS PAIS

  

À D. NHANHÁ DE MATOS,

 

 

AOS AMIGOS DA LIBERDADE E DO DIREITO, DEDICO SEM PRETENSÕES ESTA MINHA OBRA.


 

ESCLARECIMENTO

 

(p.19)

 

 Em tempo, aos leitores de outras plagas, desejo esclarecer, sucintamente, o significado da palavra EI:

Nascida no espírito fraternal do povo lavrense, esta pequenina palavra de duas letras, encerra em si um todo de cordial e significativo, em substituição ao habitual “Bom dia”, “Boa Tarde” ou “Boa Noite”. Traz ainda, pela sua docilidade, pela sua natural pronúncia, saturada de sinceridade, o desejo de venturas e a familiaridade amiga de um povo desprendido e igual.

 Nascido que seja, já o pequenino filho desta terra de Álvaro Botelho, escuta de seus maiores esta saudação simples, alegre e despretensiosa: “EI”...

 Deixando pois aqui, em síntese, este pequeno esclarecimento, deixo também a todos os meus leitores, fraternalmente...

 ... O meu “Ei”!

 O meu “EI” muito lavrense.

  

ELCÍDIO GRANDI

 

 

 

PREFÁCIO

 

p.23

 

Lanço um breve olhar pelos horizontes da vida; vejo uma infame bacanal de misérias arrastando-se aos pés da orgia do esperdício. Vejo um escravo faminto, sob a chibata de um senhor impiedoso. Contemplo a mendicância e a fome estiradas sob os tacões da ostentação e dos banquetes.

 Em contrastes gritantes... uma “champagne” que estoura e morte à falta de amparo.

 Esquálidas mãos se levantam; pedem uma esmola pelo amor de Deu...! E borbulham nas mãos dos potentados, em brindes afrodisíacos, finas taças de cristal.

 De um lado a miséria e os calos, o trabalho insano e a dor cruciante, do outro a riqueza e as jóias, o lazer e a opressão.

 São palácios ostentosos; são choupanas com goteiras, são finas mãos delicadas... são mãos duras e cansadas.

 A vergonha, o escárnio, o riso. O pranto, o gargalhar feliz; a ignorância, a culpa e a traição!

 Arrastam-se honras na lama... abusam do mando os mais ignóbeis chacais.

 Campeia a ignorância e o desamparo... e a decadência do ouro coleciona encadernações.

 A SUA CRISE, BRASIL, ACIMA DE QUALQUER OUTRA, É HORRENDA, MONSTRUOSA, DESCABIDA.

 É UMA CRISE DE VERGONHA!

 Jamais aflorou em meu pensamento a idéia de fazer-me literato e nem sequer me ocupa a imaginação a pretensão de tal. Lanço nas bancas esse livro meu, coletânea de ligeiras crônicas radiofônicas, atendendo à solicitação de amigos e tão somente por isto.

 Se você, leitor, sabe fazer diferença entre o elogia merecido e a bajulação vergonhosa, leia este e compreenda que os nomes ou instituições nele apontados, como virtude e honra, merecem de fato, não somente páginas como estas, mas sim verdadeiros poemas escritos por mãos de mestres.

 Ao compilar este punhado de crônicas para a organização deste volume, procurei não modificá-las, conservando-as com todo o seu sabor primitivo, sem lapidação e sem rodeios, cruas, sinceras e francas como a minha própria pessoa.

 Embora de pequena envergadura, esta minha obra vai saturada de verdades, cheia de revolta contra a tirania e a imposição. Exuberante de liberdade, franca e destemerosa.

 Estas páginas não foram escritas para os espíritos servis. Não foram romanceadas para os temperamentos apaniguados. Foram forjadas para os homens que conhecem o ideal de luta e batalham por alguma coisa nobre, acima do lodo da existência.

 Minhas crônicas, embora não obedeçam ordem cronológica na organização deste volume, foram escritas em épocas oportunas, sagrando nomes e feitos ou atacando déspotas e impostores.

 Ao abrir você as primeiras páginas deste livro, caro leitor, deve primeiro consultar a sua consciência, vasculhar os seu atos e compenetrar-se de ser na verdade um homem livre, pois de outra forma esta leitura poderá criar dentro do seu peito um sentimento de revolta contra mim, avivando ainda mais o seu ódio à liberdade.

 Aos rabiscadores de leis opressoras, também não recomendo minha obra, pois o antagonismo poderia chocá-los.

 Ao cerrar as últimas palavras deste livro, desejaria também cerrar os olhos e nunca mais abri-los para contemplar a desigualdade da existência.

 PARA OS LIVRES A MORTE É VIDA E A VIDA UMA LUTA SEM TRÉGUAS!

 

 Lavras, janeiro de 1948.

 

ELCÍDIO GRANDI




 

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