O
MEU EI
PARA
VOCÊ
COLETÂNEA DE LIGEIRAS
CRÔNICAS RADIOFÔNICAS
LIVRARIA
EDITORA ZELIO VALVERDE S. A.
Travessa
do Ouvidor, 27
RIO
– 1948
A verdade pode ser
dita em todas as línguas, em todos os dialetos. Da boca do sábio ao sussurro do
leito, ela é una, forte e temida.
O direito é
propriedade de todos os viventes. Cair abraçado a ele é dever de todo cidadão.
A liberdade é o maior
escudo de defesa humana. Ser livre é estar mais próximo de Deus.
OFERENDA
A MEUS
PAIS
À D. NHANHÁ DE MATOS,
AOS
AMIGOS DA LIBERDADE E DO DIREITO, DEDICO SEM PRETENSÕES ESTA MINHA OBRA.
ESCLARECIMENTO
(p.19)
Em
tempo, aos leitores de outras plagas, desejo esclarecer, sucintamente, o
significado da palavra EI:
Nascida
no espírito fraternal do povo lavrense, esta pequenina palavra de duas letras,
encerra em si um todo de cordial e significativo, em substituição ao habitual
“Bom dia”, “Boa Tarde” ou “Boa Noite”. Traz ainda, pela sua docilidade, pela
sua natural pronúncia, saturada de sinceridade, o desejo de venturas e a
familiaridade amiga de um povo desprendido e igual.
Nascido
que seja, já o pequenino filho desta terra de Álvaro Botelho, escuta de seus
maiores esta saudação simples, alegre e despretensiosa: “EI”...
Deixando
pois aqui, em síntese, este pequeno esclarecimento, deixo também a todos os
meus leitores, fraternalmente...
... O
meu “Ei”!
O meu
“EI” muito lavrense.
ELCÍDIO
GRANDI
PREFÁCIO
p.23
Lanço
um breve olhar pelos horizontes da vida; vejo uma infame bacanal de misérias
arrastando-se aos pés da orgia do esperdício. Vejo um escravo faminto, sob a
chibata de um senhor impiedoso. Contemplo a mendicância e a fome estiradas sob
os tacões da ostentação e dos banquetes.
Em
contrastes gritantes... uma “champagne” que estoura e morte à falta de amparo.
Esquálidas
mãos se levantam; pedem uma esmola pelo amor de Deu...! E borbulham nas mãos
dos potentados, em brindes afrodisíacos, finas taças de cristal.
De um
lado a miséria e os calos, o trabalho insano e a dor cruciante, do outro a
riqueza e as jóias, o lazer e a opressão.
São
palácios ostentosos; são choupanas com goteiras, são finas mãos delicadas...
são mãos duras e cansadas.
A
vergonha, o escárnio, o riso. O pranto, o gargalhar feliz; a ignorância, a
culpa e a traição!
Arrastam-se
honras na lama... abusam do mando os mais ignóbeis chacais.
Campeia
a ignorância e o desamparo... e a decadência do ouro coleciona encadernações.
A SUA
CRISE, BRASIL, ACIMA DE QUALQUER OUTRA, É HORRENDA, MONSTRUOSA, DESCABIDA.
É UMA
CRISE DE VERGONHA!
Jamais
aflorou em meu pensamento a idéia de fazer-me literato e nem sequer me ocupa a
imaginação a pretensão de tal. Lanço nas bancas esse livro meu, coletânea de
ligeiras crônicas radiofônicas, atendendo à solicitação de amigos e tão somente
por isto.
Se
você, leitor, sabe fazer diferença entre o elogia merecido e a bajulação
vergonhosa, leia este e compreenda que os nomes ou instituições nele apontados,
como virtude e honra, merecem de fato, não somente páginas como estas, mas sim
verdadeiros poemas escritos por mãos de mestres.
Ao
compilar este punhado de crônicas para a organização deste volume, procurei não
modificá-las, conservando-as com todo o seu sabor primitivo, sem lapidação e
sem rodeios, cruas, sinceras e francas como a minha própria pessoa.
Embora
de pequena envergadura, esta minha obra vai saturada de verdades, cheia de
revolta contra a tirania e a imposição. Exuberante de liberdade, franca e
destemerosa.
Estas
páginas não foram escritas para os espíritos servis. Não foram romanceadas para
os temperamentos apaniguados. Foram forjadas para os homens que conhecem o
ideal de luta e batalham por alguma coisa nobre, acima do lodo da existência.
Minhas
crônicas, embora não obedeçam ordem cronológica na organização deste volume,
foram escritas em épocas oportunas, sagrando nomes e feitos ou atacando
déspotas e impostores.
Ao
abrir você as primeiras páginas deste livro, caro leitor, deve primeiro
consultar a sua consciência, vasculhar os seu atos e compenetrar-se de ser na
verdade um homem livre, pois de outra forma esta leitura poderá criar dentro do
seu peito um sentimento de revolta contra mim, avivando ainda mais o seu ódio à
liberdade.
Aos
rabiscadores de leis opressoras, também não recomendo minha obra, pois o
antagonismo poderia chocá-los.
Ao
cerrar as últimas palavras deste livro, desejaria também cerrar os olhos e
nunca mais abri-los para contemplar a desigualdade da existência.
PARA OS
LIVRES A MORTE É VIDA E A VIDA UMA LUTA SEM TRÉGUAS!
Lavras,
janeiro de 1948.
ELCÍDIO
GRANDI
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