Os clarins da pátria se levantam, num
brado uníssono e magnífico, para sagrar a memória daquele bravo e romântico
mancebo, que um dia, num arrojo de bravura, levantou a sua espada num gesto
soberbo, fazendo correr pelo Brasil afora, de norte a sul, de leste a oeste, o
grito varonil de “INDEPENDÊNCIA OU MORTE!” “Às margens plácidas do Ipiranga”,
como diz o poeta, os brasileiros, “Ouviram este brado retumbante”. E, deste
momento para cá, o Brasil foi livre. Livre em seus próprios rumos. Senhor de
meu próprio arbítrio e dono de uma bandeira: “AURI-VERDE PENDÃO DE MINHA TERRA,
QUE A BRISA DO BRASIL BEIJA E BALANÇA...” Auriverde pendão que se levanta, em
manifestações de júbilo, para sagra a nossa magna data: 7 de setembro!
Mais um 7 de setembro que passa, contemplando deste Brasil de misérias e abusos, onde os senhores do dinheiro apisoam e matam covardemente a vontade dos livres, numa luta desigual, onde o ouro pesa na balança da degeneração de um povo.
Num país, onde uma Câmara de Deputados se esquece da massa que a elegeu, abandonando os interesses da comunidade, para, numa vergonhosa seqüência, discutir regras de futebol e apontar faltas particulares entre si.
Num país, que manda vir da França, morangos silvestres e caviar, em aviões especiais, para os banquetes de homenagens, onde corre a champanhe estrangeira, entre doirados fardões e enfarpeladas casacas.
Num país, onde o pobre morre à míngua, mendigando uma réstia de sol e de direitos.
Num país de fome e de banquetes, de padrinhagens e abandonos, de burocracia e de inércia. Onde os tubarões da economia roubam o próprio pão da boca dos operários.
Num país, que tem um Palácio do Catete, onde se alberga a fartura e o esperdício, a indiferença e a pompa.
Num país, alcunhado de terra da fartura, sob cuja bandeira vive um povo miserável!
Num país, como num mundo, diz o poeta (*):
“Num mundo em que há migalhas e
esperdícios
Pratos cheios de restos enfastiados
E bocas que salivam sem ter pão”
“E em que há crianças tristes,
maltrapilhas,
Que não terão livros nem recreios
Nem mesmo infância em seu coração;”
“Num mundo onde os enfermos são
tratados
Com a caridade irônica dos homens
Que são donos dos próprios hospitais;”
“Onde alguns já nasceram infelizes
E hão de viver sem segurança e paz
Sem meios de lutar, abandonados,
E outros – trazem do berço as regalias
Que hão de inutilizar despreocupados;”
“Num mundo, onde há mãos cheias,
transbordantes,
E há, mendigando, pobres mãos vazias,
Onde há mãos duras, ásperas, cansadas,
E suaves mãos inúteis e macias;”
“Onde uns, têm casas grandes, com
jardins,
E outros, quartos estreitos, sem
janelas;”
“Num mundo, onde os artistas
prisioneiros
Fazem “roda” nos mesmos quarteirões
Sonhando sempre uma impossível viagem;
E há homens displicentes, nos navios,
Carregando “kodaks” distraídos
Que têm mais almas que os seus olhos
frios;”
“Num mundo, onde os que podem não têm
filhos,
E os que têm filhos, quase sempre
lutam
Porque não podem construir um lar;”
“Num mundo, onde ao mais leve olhar
humano
Vê-se que não há nada em seu lugar,
E onde no entanto, fala-se em Direito,
Em Razão, em Justiça, em Liberdade;”
“Num mundo, onde uns jejuam muitos
dias
E outros, por vício, muitas vezes
comem...
Sinto a angústia fatal de ter nascido
E a suprema VERGONHA de ser homem.”
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E é este país; Terra de Santa Cruz,
terra de Álvares Cabral, que vê hoje, passar mais um ano de sua emancipação
política,ouvindo os lamentos de seus filhos abandonados. Vendo as chagas da
miséria, abertas no próprio coração da Pátria, onde nem sequer o direito das
primeiras letras é concedido a todos.
7 DE SETEMBRO! Dia da nossa Independência. Dia da independência de um povo, que tem somente o direito de reclamar, mas nunca o direito de ter. O direito de bradar no deserto, pois os muros dos palácios governamentais são de grossa espessura e os clamores do povo não encontram por onde penetrar.
Mas, o Brasil continua a caminhar;
caindo aqui e levantando-se ali. Sempre resoluto e esperançoso num amanhã que
não pode tardar.
Os nossos bravos pracinhas, que no velho mundo colheram para nós os louros da vitória, receberam em seus peitos, as doiradas medalhas de heróis – único reconhecimento da pátria do esquecimento. E hoje, quantos deles não estendem as mãos mutiladas, pedindo uma esmola pelo amor de Deus? Enquanto o governo e a pátria,pelos quais lutaram, se fecham nas muralhas do olvido,lançando sobre eles o mando do ostracismo e do abandono.
Mas, eu creio em você, Brasil. Eu creio no seu reerguimento e quero deixar aqui, para a sua magna data, para você, dia 7 de setembro, com a confiança de um brasileiro que pensa e fala com liberdade, o meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
(*) “VERGONHA”, de J. G. de Araújo Jorge
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