sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

CHUVINHA RENITENTE

 



-Divagação –



p.313

 

Numa constância quase ininterrupta, desmanchando sonhos de passeios e pic-nics há muito planejados, fazendo da poeira fina de nossa terra essa lama vermelha e escorregadiça, alagando as esburacadas calçadas de nossas vias, você, chuvinha irritante, espalha sobre a cidade seu líquido manto, apagando a sorridente face do astro-rei, com uma nostalgia de calma e repouso, que brota de um céu gris e tristonho povoado de sentimentalismo e cansaço.

 

As tardes de mortas luminosidades, nos apresentam como donzelas pálidas e doentias, sob o influxo de auroras há muito sucumbidas.

 

E, como refolho dos corações magoados e repisados pela dor de uma saudade, pelo sentimento surdo de uma ingratidão, corações onde o sol da alegria deixou somente um vago reflexo de mudas tristezas, os seus dias são cheios de repouso e recordação, saturados das páginas vivas de remotos passados, por sobre os quais a ampulheta do tempo passou as suas esquálidas mãos, arrastando o futuro para o presente e o presente para o passado, num vago passo de indiferença, cumprindo um irredutível destino.

 

Você, chuvinha sonhadora, que penetra no mais recôndito âmago das almas, arrancando dali aquela potente e cegadora luminosidade que embala a alegria, para em seu lugar deixar essa bruma cinza de retrospecção, amortalhando e envolvendo em seus braços o dinamismo dos dias presente e povoando-as de calma e autoestudo, numa dissecação espiritual, de onde brotam em desenfreada corrida as amarguras do passado.

 

E é a você, chuvinha monótona e fria que banhas as velhas e tortuosas ruas das Lavras do Funil, que eu, em confronto com o meu próprio íntimo, saturado também de agruras pelos caminhos da vida, deixo aqui, com a recordação de muitos dias já vividos, com um respeito sereno pela sua psíquica influência, o meu ei...

 

O MEU EI PARA VOCÊ.

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