Numa constância quase ininterrupta,
desmanchando sonhos de passeios e pic-nics há muito planejados, fazendo da
poeira fina de nossa terra essa lama vermelha e escorregadiça, alagando as
esburacadas calçadas de nossas vias, você, chuvinha irritante, espalha sobre a
cidade seu líquido manto, apagando a sorridente face do astro-rei, com uma
nostalgia de calma e repouso, que brota de um céu gris e tristonho povoado de
sentimentalismo e cansaço.
As tardes de mortas luminosidades, nos
apresentam como donzelas pálidas e doentias, sob o influxo de auroras há muito
sucumbidas.
E, como refolho dos corações magoados
e repisados pela dor de uma saudade, pelo sentimento surdo de uma ingratidão,
corações onde o sol da alegria deixou somente um vago reflexo de mudas
tristezas, os seus dias são cheios de repouso e recordação, saturados das
páginas vivas de remotos passados, por sobre os quais a ampulheta do tempo
passou as suas esquálidas mãos, arrastando o futuro para o presente e o
presente para o passado, num vago passo de indiferença, cumprindo um
irredutível destino.
Você, chuvinha sonhadora, que penetra
no mais recôndito âmago das almas, arrancando dali aquela potente e cegadora
luminosidade que embala a alegria, para em seu lugar deixar essa bruma cinza de
retrospecção, amortalhando e envolvendo em seus braços o dinamismo dos dias
presente e povoando-as de calma e autoestudo, numa dissecação espiritual, de
onde brotam em desenfreada corrida as amarguras do passado.
E é a você, chuvinha monótona e fria
que banhas as velhas e tortuosas ruas das Lavras do Funil, que eu, em confronto
com o meu próprio íntimo, saturado também de agruras pelos caminhos da vida,
deixo aqui, com a recordação de muitos dias já vividos, com um respeito sereno
pela sua psíquica influência, o meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
Nenhum comentário:
Postar um comentário