-Ode-
Quando, sob as intempéries de noites
intermináveis ou sob a canícula de infindáveis dias, tendo por abrigo a
miséria, imposta pela desigualdade de direitos e por consolo a solitária dor do
seu próprio sofrimento, você, inválido de Lavras, arrastando a sua miséria
pelas ruas da cidade, mãos esquálidas estendidas, como se buscassem na sobra do
infinito o coração da própria vida, mendigava pão e água, mendigava uma palavra
de carinho ou um sorriso de fraternidade, recebendo, no lodo que a humanidade
criou para você, magros óbolos, lançados ao descuido por mãos indiferentes. E
como que um círculo de ferro, o premia contra a muralha imunda, que separa o
direito da ociosidade e da fortuna, do direito de sofrer, chagado pela própria
mão da humanidade desregrada. As esmolas, que não dadas, mas atiradas com
desprezo, pareciam pútridos átomos do coração da fatalidade, queimando-lhe as
magras mãos de infeliz desprezado.
Você, inválido de Lavras, carpindo a
fome e a miséria, cobrindo de farrapos seu corpo chagado pela imposição das
castas e pela indiferença de governos mal orientados, se mostrava no mais
absoluto e completo abandono, levando pelos caminhos da vida, como a um
arrastar de mortalhas, o seu gemido de dor, povoado de visões, onde imperava em
toda a sua onipotência, a senhora de todos os momentos, cortesã de todas as
classes, futuro de toda a existência, ômega de todos os ideais: a Morte. Você a
vislumbrava por destras de todos os olhares. Você a chamava em todos os seus
clamores. Você a buscava em todos os seus momentos e sorria para ela com o seu
sorriso inocente de criança fantasista. Você chorava sobre o cadáver da própria
morte, ao vê-la impotente, tombar ante a sua miséria, impondo-lhe a obrigação
caluniosa da vida, sobre os espinhos árduos de uma existência sem direitos.
Mas, da cloaca imunda da vida,
submergem sempre brancas flores, que, apesar de enraizadas no lodo, não se
contagiam no miasma dos pútridos ambientes e se elevam acima da atmosfera da
ignorância e da incompreensão, para mirar nas alturas de ráfagas mais puras e
espíritos mais esclarecidos, o verdadeiro ideal que coroa a existência
verdadeira, dizendo como Van Paasen: “O dia em que o homem, cansado de caminhar
sozinho , se voltar para o seu irmão... nesse dia, somente nesse dia, a
fraternidade do homem será uma realidade”.
Você, inválido de Lavras, encontrou e
colheu nos charcos da vida, as flores diáfanas de uma existência mais certa e
de uma morte mais calma. Você encontrou homens que compreenderam sua miséria e
viram a premência de o assistir nos seus dias incertos e carregados de
infelicidades. E você tem hoje um abrigo,um abrigo de onde a fome e a miséria,
o desamparo e a incompreensão, foram banidos como vermes imundos.
Eu deixo aqui, não ao mendigo de
Lavras, mas a você, abrigado inválido de minha terra, o meu ei...
O MEU EI PARA VOCÊ.
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