quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

INVÁLIDO DE LAVRAS

 



-Ode-

Quando, sob as intempéries de noites intermináveis ou sob a canícula de infindáveis dias, tendo por abrigo a miséria, imposta pela desigualdade de direitos e por consolo a solitária dor do seu próprio sofrimento, você, inválido de Lavras, arrastando a sua miséria pelas ruas da cidade, mãos esquálidas estendidas, como se buscassem na sobra do infinito o coração da própria vida, mendigava pão e água, mendigava uma palavra de carinho ou um sorriso de fraternidade, recebendo, no lodo que a humanidade criou para você, magros óbolos, lançados ao descuido por mãos indiferentes. E como que um círculo de ferro, o premia contra a muralha imunda, que separa o direito da ociosidade e da fortuna, do direito de sofrer, chagado pela própria mão da humanidade desregrada. As esmolas, que não dadas, mas atiradas com desprezo, pareciam pútridos átomos do coração da fatalidade, queimando-lhe as magras mãos de infeliz desprezado.

 Você, inválido de Lavras, carpindo a fome e a miséria, cobrindo de farrapos seu corpo chagado pela imposição das castas e pela indiferença de governos mal orientados, se mostrava no mais absoluto e completo abandono, levando pelos caminhos da vida, como a um arrastar de mortalhas, o seu gemido de dor, povoado de visões, onde imperava em toda a sua onipotência, a senhora de todos os momentos, cortesã de todas as classes, futuro de toda a existência, ômega de todos os ideais: a Morte. Você a vislumbrava por destras de todos os olhares. Você a chamava em todos os seus clamores. Você a buscava em todos os seus momentos e sorria para ela com o seu sorriso inocente de criança fantasista. Você chorava sobre o cadáver da própria morte, ao vê-la impotente, tombar ante a sua miséria, impondo-lhe a obrigação caluniosa da vida, sobre os espinhos árduos de uma existência sem direitos.

 Mas, da cloaca imunda da vida, submergem sempre brancas flores, que, apesar de enraizadas no lodo, não se contagiam no miasma dos pútridos ambientes e se elevam acima da atmosfera da ignorância e da incompreensão, para mirar nas alturas de ráfagas mais puras e espíritos mais esclarecidos, o verdadeiro ideal que coroa a existência verdadeira, dizendo como Van Paasen: “O dia em que o homem, cansado de caminhar sozinho , se voltar para o seu irmão... nesse dia, somente nesse dia, a fraternidade do homem será uma realidade”.

 Você, inválido de Lavras, encontrou e colheu nos charcos da vida, as flores diáfanas de uma existência mais certa e de uma morte mais calma. Você encontrou homens que compreenderam sua miséria e viram a premência de o assistir nos seus dias incertos e carregados de infelicidades. E você tem hoje um abrigo,um abrigo de onde a fome e a miséria, o desamparo e a incompreensão, foram banidos como vermes imundos.

 Eu deixo aqui, não ao mendigo de Lavras, mas a você, abrigado inválido de minha terra, o meu ei...


 O MEU EI PARA VOCÊ.

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